O vácuo pode ser ocupado por alguém indesejável

Por Betania Tanure

Vivemos hoje no Brasil uma real e gritante crise de liderança. É preciso encarar uma discussão mais séria sobre o outro lado da moeda dessa situação: a crise de valores. Pergunto: quais os valores que temos na sociedade brasileira? E em nossas organizações e instituições públicas, qual a cultura que queremos que se perpetue?

A falta de liderança e de valores sólidos gera um vácuo: de propósitos, de sonhos, de esperança, de resultados. Grande parte dos problemas que estamos enfrentando é fruto do espaço vazio deixado por lideranças que não lideram e por valores que não orientam os comportamentos das pessoas para resultados admiráveis. Urge estabelecer, entre os valores de nossa sociedade e de nossas empresas, quais seriam inegociáveis.

Faltam modelos, pessoas e culturas que inspirem, que tragam esperança - a do verbo esperançar, e não do verbo esperar. Sem esperança não há caminho para a recuperação. Nas organizações, a crise se alimenta de uma cultura que não estimula os dirigentes de empresas a serem estadistas.

Uso este termo no sentido de as pessoas, as empresas e as instituições terem como foco não apenas o Ebitda (simplificando, é claro), mas a corresponsabilidade pelo ambiente em que estão, o que inclui a necessidade de investir energia e talento em algo maior, de ter uma posição Política, com P maiúsculo, não partidária. No Brasil, não se cumpriu esse propósito: nossas pesquisas indicam que apenas 2% (pasme, 2%!) dos dirigentes atuam como estadistas.

É preciso expurgar com a força necessária as ações não republicanas e agora, com muita ênfase, trazer o compliance para o jogo. Parece-me, porém, que em determinados momentos os termos "dirigente estadista", "posição política apartidária" e "compliance", às vezes seguido de "governança", têm sido utilizados desconsiderando-se um elemento basilar: a mudança de cultura.

Na ausência de um programa de mudança de cultura organizado, sistematizado, com apoio externo, esqueça a ação de estadista, esqueça a mudança de governança, esqueça o compliance. O programa não será verdadeiramente implantado! E, vale ressaltar, não há mais espaço para projetos assim.

Precisamos de pessoas com competência objetiva e subjetiva para projetar o futuro, modelar um propósito e construir as alavancas corretas para chegar lá. Liderança nas diversas gerações: pessoas que tenham um propósito de país, que não permitam que os interesses individuais se sobreponham aos interesses coletivos, que enxerguem além do seu próprio umbigo. Precisamos de dirigentes que estejam dispostos a se arriscar e alçar voo, mesmo em ambientes menos seguros e mais incertos...

Eles devem saber exercer influência no meio externo, competência bem diferente das desenvolvidas no passado: o autoritarismo com os subordinados, as idas a Brasília em busca de benefícios específicos para a empresa... Onde fica o estadista e o compliance nesse momento?

Os estadistas precisam - e podem - ajudar a recuperar a esperança de todos, em especial dos jovens. Não estamos percebendo, mas há uma geração de jovens apática ou desinteressada no país e que busca oportunidades fora dele. Uma geração que fará falta, muita falta, na próxima década. Podemos ficar com um vácuo importante. Inclusive do sonho, da luta e da energia dos jovens cidadãos de bem. E, atenção, o espaço pode ser ocupado por quem não devia estar nele.

Portanto, é hora de você, de cada um de nós, garantir que os vácuos sejam corretamente preenchidos. Na vida pessoal, um relacionamento rompido pode gerar a oportunidade de viver um novo amor. Ou, se tomamos como exemplo a falta de tempo dos pais de orientar seus filhos, esse vácuo pode ser preenchido por coisas indesejáveis e perversas.

Na empresa, o espaço que você não ocupa será preenchido por outra pessoa, não tenha dúvida disso. Não adianta reclamar depois. E quando falamos de instituições públicas a lógica não é diferente. Com a proximidade das eleições, o vácuo de lideranças estadistas pode ser perigoso. Acordemos antes que seja tarde! Este é o momento de cada um ocupar o espaço de realização que tem o dever de ocupar, em nível individual, familiar, empresarial e como cidadão deste país - no qual eu, pelo menos, escolhi morar. Mãos à obra!

Betania Tanure é doutora, professora e consultora da BTA